terça-feira, 19 de março de 2013

Crônicas de Cony Sobre São José

Reuni aqui duas crônicas de Carlos Heitor Cony sobre a figura de São José. Elas foram publicadas na Folha de São Paulo no mês de março de 2000, nesta época eu estava no primeiro ano de Seminário e li estas crônicas que muito me tocaram. Mesmo se dizendo agnóstico, Cony revela seu respeito e admiração por José. Na sua história não sei em que momento ele descobriu a figura de José, talvez quando ainda era aluno do Seminário São José, mas enfim gostei muito do seu gesto e fico feliz de ter reencontrado esse texto, que disponho aos amigos em meu blog. Vale dizer que o segundo texto foi escrito porque muitos leitores reagiram negativamente a iniciativa de Cony, mas ele defendeu brilhantemente seu direito de escrever sobre o grande José, magnifico leiam!


O carpinteiro de Nazaré
CARLOS HEITOR CONY
Folha de São Paulo 20 de Março de 2000

RIO DE JANEIRO - Ontem, dia de São José, gastei meu espaço aqui na Folha com um assunto vil, comentando a lama que o ventilador da sucessão está espalhando por toda parte sem nenhum engenho e sem nenhuma arte.
Esqueci-me de falar do homem mais extraordinário da espécie humana, tão extraordinário que nada fez na vida a não ser aceitar, em silêncio e com humildade, o mistério. Qualquer que seja a nossa crença -ou a nossa descrença-, esbarramos nele com assombrosa admiração. Não faltam grandes heróis no calendário de qualquer religião. Homens que, em nome de Jeová, de Maomé, de Cristo, de Buda, de Oxalá e até mesmo em nome de nenhum Deus e de nenhum credo, foram maravilhados na escala humana.
Mas aquele carpinteiro da Galiléia, de quem não se conhece uma palavra, nada fez de admirável, nunca fez um gesto heróico ou virtuoso.
Foi só avisado de que a sua noiva, uma jovem de 15 anos, teria um filho que não era dele. Não duvidou da revelação. Aceitou o grande, o imenso, o absurdo mistério do qual participava mesmo sem compreendê-lo.
Protegeu a mulher e o filho. Levou a família para o Egito quando soube que Herodes queria matar o menino, temendo que ele fosse um rei.
Não, não podia ser rei um menino nascido numa manjedoura. Para o homem humilde e iletrado como ele, simples carpinteiro em Nazaré, aldeia de onde nada podia vir de bom, o menino não era um rei. Seria Deus?
Na cabeça de um carpinteiro de Nazaré, o que seria um Deus?
Nada se sabe a respeito dele, a não ser que aceitou o mistério no qual tomaria parte. Não fez perguntas, tampouco respondeu a perguntas. Fez apenas o que achava que devia fazer.
O carpinteiro de Nazaré, justamente porque não questionou o mistério, superou o mistério com a tranquilidade de sua fé.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2003200206.htm

Um homem chamado José
CARLOS HEITOR CONY
Folha de São Paulo 26 de Março de 2000


Rio de Janeiro - A crônica que publiquei no último domingo, sobre são José, provocou alguns protestos de leitores que não compreendem como um sujeito, declarando-se agnóstico, seja devoto de santos. Muitos dos quais talvez nem tenham existido.
Dom Quixote era amarrado em Amadis de Gaula, outro personagem que talvez não tenha existido, sendo tão fictício como o próprio Quixote. A admiração do Cavaleiro da Triste Figura pelos heróis da cavalaria andante perturbou-lhe o juízo e deu no que deu. Dom Quixote ficou sendo o personagem mais real da aventura humana.
Raskolnikof, Julien Sorel, Sherlock Holmes, Édipo, Eletra, Falstaf, Ema Bovary, Ulisses, Carlos Swann também não existiram. E são imitados ou venerados, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.
Um personagem como José de Nazaré, que viveu há 2.000 anos, ou mesmo não viveu porque foi inventado pelos primeiros cristãos, sendo ou não realidade, é de uma assombrosa grandeza humana.
Nenhum dos gênios, como Homero, Sófocles, Cervantes, Shakespeare, Balzac ou Tolstói, teria criado um homem como ele, que aceitou participar de um mistério complicadíssimo para qualquer um, sobretudo para um humilde trabalhador braçal, perdido numa Galiléia inculta e não bela.
Humilde em vida, José continuou humilde, mesmo em sua trajetória através do tempo. Não há catedrais fabulosas em sua homenagem. Não tem a importância histórica de Moisés, Maomé ou Paulo. Nem feitos admiráveis como Francisco de Assis ou Antônio de Pádua.
Não se conhece uma frase sua. Apenas gestos de aceitação e proteção. Sendo o oposto do rebelde sem causa, ele teve uma causa que considerou sagrada, à qual se submeteu em silêncio.
Sendo impossível seguir-lhe o exemplo, limito-me a admirá-lo. E a pedir que, seja lá a quem, rogue por mim.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2603200005.htm

domingo, 20 de janeiro de 2013

As Bodas de Caná

1. Ao narrar a presença de Maria na vida pública de Jesus, o Concílio Vaticano Il recorda a sua participação em Caná por ocasião do primeiro milagre: ´Nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cf. Jo. 2, 1´11) ´(LG, 58). Seguindo a esteira do evangelista João, o Concílio faz notar o papel discreto e, ao mesmo tempo, eficaz da Mãe que, com a sua palavra, leva o filho ao ´primeiro sinal´ Ela, embora exerça uma influência discreta e materna, com a sua presença resulta, no final, determinante. A iniciativa da Virgem aparece ainda mais surpreendente se se considera a condição de inferioridade da mulher na sociedade judaica. Em Caná, com efeito, Jesus não só reconhece a dignidade e o papel do gênio feminino, mas, acolhendo a intervenção de Sua Mãe, oferece´lhe a possibilidade de ser partícipe na obra messiânica. Não contrasta com esta intenção de Jesus o apelativo ´Mulher´, com o qual Ele se dirige a Maria (cf, Jo. 2, 4). Ele, de fato, não contém em si nenhuma conotação negativa e será de novo usado por Jesus em relação à Mãe, aos pés da Cruz (cf. Jo. 19, 26). Segundo alguns intérpretes, este título ´mulher´ apresenta Maria como a nova Eva, Mãe de todos os crentes na fé. O Concílio, no texto citado, usa a expressão ´movida de compaixão´, deixando entender que Maria era inspirada peIo seu coração misericordioso. Tendo divisado a eventualidade do desapontamento dos esposos e dos convidados pela falta de vinho, a Virgem compadecida sugere a Jesus que intervenha com o seu poder messiânico. A alguns o pedido de Maria parece desproporcionado, porque subordina a um ato de piedade o início dos milagres do Messias. À dificuldade respondeu Jesus mesmo que, com o seu assentimento à solicitação materna, demonstra a superabundância com que o Senhor responde as expectativas humanas, manifestando também quanto pode o amor de uma Mãe.

2. A expressão ´dar início aos milagres´ que o Concílio retomou do texto de João, chama a nossa atenção. O termo grego archè, traduzido por início, princípio, foi usado por João no prólogo do seu Evangelho: ´No principio já existia o Verbo´ (1, 1). Esta significativa coincidência induz a estabelecer um paralelo entre a primeira origem da glória de Cristo na eternidade e a primeira manifestação da mesma glória na sua missão terrena. Ressaltando a iniciativa de Maria no primeiro milagre e recordando depois a sua presença no Calvário, aos pés da Cruz, o evangelista ajuda a compreender como a cooperação de Maria se estende à inteira obra de Cristo. O pedido da Virgem coloca´se no interior do desígnio divino de salvação. No primeiro sinal operado por Jesus os Padres da Igreja divisaram uma forte dimensão simbólica, acolhendo, na transformação da água em vinho, o anúncio da passagem da antiga à nova Aliança. Em Caná precisamente a água das jarras, destinada à purificação dos Judeus e ao cumprimento das prescrições legais (cf. Mc. 7, 1´15), torna´se o vinho novo do banquete nupcial, símbolo da união definitiva entre Deus e a humanidade.

3. O contexto de um banquete de núpcias, escolhido por Jesus para o Seu primeiro milagre, remete ao simbolismo matrimonial, freqüente no Antigo Testamento para indicar a Aliança entre Deus e o Seu povo (cf. Os. 2, 21; Jer. 2, 1´8; SI. 44; etc.) e no Novo Testamento para significar a união de Cristo com a Igreja (cf. Jo. 3, 28´30; Ef. 5, 25´32; Ap. 21, 1´2; etc.).

A presença de Jesus em Caná manifesta, além disso, o projeto salvífico de Deus a respeito do matrimônio. Nessa perspectiva, a falta de vinho pode ser interpretada como alusiva à falta de amor, que infelizmente, não raro, ameaça a união esponsal. Maria pede a Jesus que intervenha em favor de todos os esposos, que só um amor fundado em Deus pode libertar dos perigos da infidelidade, da incompreensão e das divisões.

A graça do Sacramento oferece aos esposos esta força superior de amor, que pode corroborar o empenho da fidelidade também nas circunstâncias difíceis. Segundo a interpretação dos autores cristãos, o milagre de Caná contém, além disso, um profundo significado eucarístico. Realizando´o na proximidade da solenidade da Páscoa judaica (cf. Jo. 2, 13), Jesus manifesta, como na multiplicação dos pães (cf. Jo. 6, 4), a intenção de preparar o verdadeiro banquete pascal, a Eucaristia. Esse desejo, nas bodas de Caná, parece sublinhado ainda mais pela presença do vinho, que alude ao sangue da Nova aliança, e pelo contexto de um banquete. Desse modo Maria, depois de ter estado na origem da presença de Jesus na festa, obtém o milagre do vinho novo, que prefigura a Eucaristia, sinal supremo da presença do seu Filho ressuscitado entre os discípulos.

4. No final da narração do primeiro milagre de Jesus, que se tornou possível pela fé sólida da Mãe do Senhor no seu divino Filho, o evangelista João conclui: ´Os Seus discípulos acreditaram n’Ele´ (2, 11). Em Caná Maria inicia o caminho da fé da Igreja, precedendo os discípulos e orientando para Cristo a atenção dos servos. A sua perseverante intercessão encoraja, além disso, aqueles que às vezes se encontram diante da experiência do ´silêncio de Deus´. Eles são convidados a esperar para além de toda a esperança, confiando sempre na bondade do Senhor.

* L´Osservatore Romano, Ed. Port. n.10, 08/03/1997, pag. 12(108)

DO Livro: A VIRGEM MARIA ´ 58 CATEQUESES DO PAPA JOÃO PAULO II


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Solenidade de Todos os Santos

Segundo Bento XVI, a santidade é uma tarefa que não é exclusiva apenas dos cristãos, mas de todo o ser humano. Recordou que nos primórdios do cristianismo os cristãos eram chamados de "os santos". Com efeito, afirmou que "o cristão já é santo, porque o Batismo o une a Jesus e a seu Mistério Pascal, mas, ao mesmo tempo, deve chegar a sê-lo identificando-se com Ele mais intimamente. Às vezes, costuma-se pensar que a santidade é uma condição de privilégio reservado a uns poucos escolhidos. Na realidade, ser santo é tarefa de todo cristão, de todo homem. Segundo a epístola de São Paulo aos Efésios: "Deus sempre nos abençoou e nos escolheu em Cristo para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença, no amor". Todos os seres humanos são, portanto, chamados à santidade. Em última instância, a santidade consiste em viver como filhos de Deus, na "semelhança" com Ele, segundo a qual foram criados. Todos os seres humanos são filhos de Deus e todos devem chegar a ser aquilo que são, mediante o exigente caminho da liberdade." (Bento XVI, por ocasião da Solenidade de Todos os Santos de 2007)
Em conclusão, a santidade é uma vocação única e universal do Homem e consiste na "plenitude da vida cristã e na perfeição da caridade".

sábado, 7 de abril de 2012

Cartaz de Páscoa 2012-Movimento Comunhão e Libertação

Num momento histórico em que o Papa declarou O Ano da Fé e no qual estamos fazendo Escola de Comunidade sobre o tema da fé em Cristo (como nos disse Dom Giussani, com os olhos dos apóstolos, para fazer o caminho que eles fizeram – do impacto com a Sua humanidade à pergunta sobre a Sua divindade -), repropor o texto do Cartaz permanente do Movimento (que saiu em 1988), acompanhado da imagem de Cristo de Masaccio – que expressa a atração, a potência da Sua divindade agora -, parece para nós e para todos o juízo mais adequado à situação atual que estamos vivendo. Utilizemos o cartaz nos nossos ambientes. É uma ocasião para comunicar a todos esse juízo sobre a nossa história e a de todos. Eis a frase do cartaz:

O imperador interrogou os cristãos: “Homens estranhos... Dizei-me vós mesmos, ó cristãos, abandonados pela maioria de vossos irmãos e de vossos chefes, o que vos é mais caro no cristianismo?”. Levantou-se, então, o starets João e respondeu com doçura: “Ó grande rei, o que nos é mais caro no cristianismo é o próprio Cristo. Ele próprio e tudo o que dEle vem, porque sabemos que nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade.

Não é óbvio o que temos de mais caro. Muitas vezes nos surpreendemos ao descobrir que o que temos de mais caro não é mesmo o próprio Cristo, mas outras coisas que são consequências, não a Sua presença, não a Sua pessoa. Portanto, o cartaz é um juízo, um chamado, para uma memória do que é o cristianismo. Tendo-o à nossa frente durante todo o ano esperamos, como dissemos na apresentação da Escola de Comunidade, que cresça sempre mais o desejo de Cristo [...]: poderemos não desejar outra coisa, e entender do que temos necessidade; ao invés, se a necessidade se reduzir, poderemos não dar importância e nos contentar com algo menos que Ele.